Carlos Alberto Contieri, sj
domingo, 11 de maio de 2014
Jesus é a "Porta"
Hoje, quarto domingo do tempo da Páscoa, é o
domingo do Bom Pastor. No entanto, a afirmação mais importante do texto do
evangelho deste dia é que Jesus é a “porta das ovelhas”, expressão repetida
duas vezes ao longo do texto (vv. 7.9). O contexto do capítulo 10 de João é a
controvérsia de Jesus com os fariseus; eles são, no quarto evangelho, os
adversários por excelência de Jesus e que, juntamente com os sumos sacerdotes,
querem matá-lo; são eles, igualmente, que julgam que Jesus é um blasfemo.
Uma das particularidades do evangelho é a
afirmação de Jesus “eu sou”. Essa assertiva evoca Ex 3,7ss, em que Deus se
apresenta a Moisés na sarça ardente como “Eu sou”. Portanto, trata-se, aqui, da
afirmação da divindade de Jesus. Essa afirmação, no evangelho, é seguida sempre
de uma imagem: porta, bom pastor, pão da vida, pão descido céu, caminho,
verdade, vida. Essas imagens nos permitem entrar no mistério de Jesus Cristo,
enviado do Pai para dar vida ao mundo, através dos vários aspectos de sua ação
salvífica. Jesus é a porta. De que porta se trata? Da porta de um cercado, sem
teto. Ele é a porta e como toda porta ele permite entrar e sair; uma porta que
abre e que fecha. Quando a porta é fechada é para proteger as ovelhas de seus
predadores e ladrões; quando a porta é aberta o pastor vai à frente das ovelhas
para conduzi-las às pastagens. Quem conduz o povo de Deus é o próprio Senhor.
Quem nos conduz ao redil e é a porta que protege o povo contra os inimigos é o
Senhor. As ovelhas, de cujo redil Jesus é a porta, seguem unicamente o Pastor
cuja voz elas conhecem, pois sabem que, caminhando à sua frente, ele lhes
conduzirá à verdadeira pastagem (cf. Sl 22). As ovelhas não seguem a voz de um
estranho. O discípulo, ou se preferirem, a comunidade dos discípulos é caracterizada
como aquela que, protegida e conduzida pelo Pastor, ouve unicamente a sua voz,
sem se deixar seduzir ou enganar pela voz de estranhos. Jesus é a porta. Para
nós que cremos, somente por Jesus é que temos acesso à salvação; somente nele e
por ele encontramos proteção contra o “inimigo da natureza humana”. Somente
seguindo os passos do Bom Pastor podemos encontrar e sermos nutridos pelo
alimento capaz de sustentar a vida e nos livrar da morte.
Carlos Alberto Contieri, sj
FONTE: http://www.paulinas.org.br/diafeliz/?system=evangelho&id=4853
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sábado, 3 de maio de 2014
Do ver ao reconhecer
A riqueza do evangelho é tal que ele precisa
ser saboreado internamente. Todo o capítulo 24 de Lucas pode ser considerado
como um resumo de todo o seu evangelho. Cada um dos evangelhos é fruto da
experiência pascal dos discípulos. Nesse sentido, trata-se de um testemunho de
fé. Cada trecho do evangelho é uma verdadeira Páscoa: da cegueira à visão, da
enfermidade à cura, da morte à vida, da tristeza à alegria, da falta da
esperança à esperança, do ódio e rancor ao amor. O relato dos discípulos de
Emaús é, do início ao fim, uma Páscoa. O caminho que separa Jerusalém de Emaús
é metáfora de um caminho muito mais longo, o caminho através das Escrituras, em
que a lição de exegese dada por Jesus aos dois discípulos oferece condições de
eles reconhecerem o Senhor no partir o pão.
A morte de Jesus representou uma forte frustração para aqueles que punham nele as esperanças messiânicas (cf. v. 21) e fez com que, por um instante, a comunidade dos discípulos entrasse em crise. O nosso texto visa transmitir o fato que permitiu a passagem do abatimento à alegria, do ver ao reconhecer. O espaço teológico-espiritual entre o ver e o reconhecer permitiu a Jesus a lição de exegese. No tempo do reconhecimento os discípulos confessarão que foi ela que os transformou (cf. v. 32). A explicação e compreensão da Escritura, à luz da ressurreição do Senhor, abriram os olhos para o reconhecimento. A primeira ressurreição, para os discípulos é, então, a da memória. Eles compreenderam, então, que o Senhor que se apresenta vivo no meio deles, de alguma forma, estava presente em toda a Escritura que, por sua vez, encontra nele sua plenitude e sentido. Quando do reconhecimento o Senhor desapareceu da vista deles. É que a visão física não é mais necessária para “ver” o Senhor. Mesmo invisível aos olhos, o Senhor está e permanecerá presente. A invisibilidade não significa, no que diz respeito à fé, ausência. Fato, aliás, que eles nem sequer mencionam, como se a visibilidade não tivesse a menor importância. O que retém a atenção deles, e torna-se objeto da mensagem transmitida aos demais discípulos, é o acontecido no caminho para Emaús, no tempo que precedeu o reconhecimento (cf. v. 35), tempo de escuta, em que o Mestre ressuscitado continua a instruir os seus discípulos. Se a morte dispersou os discípulos, a experiência do Ressuscitado os congrega (cf. v. 33).
Carlos Alberto Contieri, sj
https://www.paulinas.org.br/diafeliz/?system=evangelho&id=4845
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